Mudando o Papel da Saúde Pública

Por Lisiane M. W. Acosta

25/10/11 | 13:10

James Chauvin e Beth Mago no painel/ Foto: Portal ENSP

- Cesar Victora – Brasil – Coordenador da mesa

- Aaron Motsoaledi – África do Sul

- Beth Mugo – Quênia

- James Chauvin – Federação Mundial da Associação de Saúde Pública

- Jose Gomes do Amaral – Associação Médica Mundial

O Coordenador da mesa coloca a questão de: Como vamos organizar nosso trabalho em saúde com foco nos determinantes sociais em saúde?

No Quênia a tuberculose aumentou muito, assim como a AIDS, daí, se fez necessário um sistema de controle como uma aliança entre o público e o privado para tuberculose, HIV/AIDS, descentralizando os serviços e prestando atenção às características de cada setor social, como por exemplo, a população nômade.

A África do Sul enfrenta o grande problema da HIV/AIDS com muitos infectados e as estratégias de enfrentamento vem do governo e da sociedade civil, abordando os tratamentos, os direitos humanos, usando uma estratégia de ampla testagem. Mas há poucos serviços de saúde que precisam e vão ser aumentados, assim como o número de enfermeiras, pois conta-se com voluntários. A tuberculose também preocupa, assim como a diabete, e outras enfermidades. Só o diálogo entre os vários coordenadores dos setores como saúde, trabalho, se pode agir em todo o país de forma geral.

Outra questão é: Qual o papel dos médicos e a mudança necessária para este profissional frente aos determinantes sociais em saúde? Os médicos são o problema ou parte da solução? Segundo Jose Gomes do Amaral, a priorização se faz necessária tendo como essência do papel do médico a prática clínica, mas o médico não pode se limitar a ela. Busca-se o ideal, usando a competência técnica e devendo-se priorizar a saúde em todos os aspectos, vendo os determinantes sociais.

Quais os papeis dos trabalhadores em saúde neste processo? James Chauvin diz que se pode usar, ao invés de trabalhadores em saúde publica, o termo – trabalhadores de saúde na comunidade, que é muito mais amplo. Todos trabalham para a saúde. Hoje há professores que trabalham a saúde com as crianças, assim como os próprios trabalhadores da saúde pública que visitam as pessoas, em ambos se vê saúde pública.

Como reduzir a iniqüidades em relação à tuberculose? Na saúde vista de forma holística, se deve trabalhar de forma abrangente como tuberculose e HIV/AIDS, assim como a tuberculose multirresistente que está assustando os quenianos. Com isso a questão coletiva supera a individual.

Para James Chauvin o enfoque de intervenção deve mudar também, não só o profissional de jaleco branco dizendo o que tem que ser feito para ter saúde, mas fazendo vínculo, trabalhando com um enfoque multidimensional e multiprofissional. É importante ver a questão global como a questão do tabaco, as questões legais que é tão ou mais importante, usando o Universalismo uma questão a ser abordada.

A visão de Aaron Motsoaledi é que a TB/HIV/AIDS são doenças sociais, a educação é a grande esperança para mudar esta realidade, mantendo mais tempo na escola, diminuindo assim a exposição a drogas, álcool, etc. O álcool desencadeia muitas ações violentas e ao mesmo tempo é fruto das questões sociais. O governo está vendo mecanismos de agir na violência doméstica. O esporte e entretenimentos também precisam estar envolvidos, ou seja, envolver todos nas pequenas e grandes cidades, com grandes empresas, área rural lançando a campanha de educação em HIV/AIDS. Esta havendo uma reestruturação no setor saúde para atender melhor a todos, usando os agentes de saúde assim como na Atenção Primária em Saúde do Brasil.

Como os médicos podem usar sua influência na questão dos determinantes sociais? Os médicos não são só médicos em algumas horas, mas todo o tempo, e todos os espaços são para manter o foco último que é a saúde. Usou-se o exemplo das motocicletas como causa de alto índice de óbitos em algumas cidades no Brasil.

As associações mundiais de saúde pública fizeram uma análise dos Determinantes Sociais de Saúde e viram que eles podem ser minimizados com ações em relações a eles. As abordagens foram diversas, as recomendações seriam que mudem a igualdade em saúde para a equidade em saúde, outras estratégias, eliminar a pobreza que precisa de toda a sociedade civil participando, assim como os profissionais de saúde criando uma associação que examinasse as leis da saúde pública. É necessário ser paciente para ter uma visão futurista de ações de longo prazo, prevendo o futuro, podendo saber que os netos terão um futuro saudável, pois hoje se está investindo na saúde. Se as comunidades não são saudáveis as pessoas não serão.

Ser ativista da saúde soa muito bem segundo Cesar Victora. E pergunta se o médico pode ser mais protagonista no mundo? Um exemplo foi o trabalho do médico no combate ao tabaco e a diminuição do tabagismo no corpo médico, pois podem dar o exemplo, não adianta só falar sem dar o exemplo. Existe agora aprovada uma moção mundial embasada em Michael Marmot para que os médicos do mundo se tornem ativistas da saúde.

Nas discussões com a platéia os seguintes tópicos foram abordados:

A resposta a uma pergunta aberta de como fazer os médicos se estabelecerem em locais menos urbanos foi: Realmente é difícil, mas a resposta deve ser dada pelos próprios profissionais e uma proposta é um ambiente mais propositivo para todos os profissionais de saúde.

Outro tópico foi dos médicos de família só terem sido reconhecidos como especialidade em 2003 no Brasil e possuírem muita dificuldade de ter mais profissionais, sendo que o número de médicos generalistas é um indicador de desenvolvimento. Para José Amaral uma das questões é a não existência de uma carreira ainda com credibilidade no sistema público. O Ministro da Saúde na África questiona por que o acesso a saúde é por um especialista em vários países? Isto não está de acordo com as necessidades do povo, dos países pobres, é algo que precisa ser enfrentado.

Em relação ao uso da tecnologia, em cidades remotas, rurais está sendo usada? No Quênia a telemedicina existe, assim como o uso de telefonia celular para educação. Mas o uso tecnologia precisa ser cuidado, pois a medicina é uma arte. Há mais tomógrafos na África do Sul que na Inglaterra e menos saúde. Talvez a experiência da tecnologia como elo da saúde pública e da especializada seja um caminho que está sendo experimentado em vários locais, a exemplo do Canadá.

Citação Bibliográfica

Acosta LMW. Mudando o Papel da Saúde Pública [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2011 Out 25. Disponível em: http://cmdss2011.org/site/?p=5960&preview=true

Lisiane M. W. Acosta

Lisiane M. W. Acosta, Enfermeira Mestre em Epidemiologia responsável pela vigilância epidemiológica da Gestante HIV+ e Criança Exposta da Equipe de Vigilância das Doenças Transmissíveis Agudas da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre.

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